Reportagem: A vida e obra de Koji Kondo (parte 3) - Nintendo Fusion
Reportagem
A vida e obra de Koji Kondo
parte 3
31 de janeiro de 2018
Confira a parte 2 da série aqui.

Há séculos, música e dança são duas artes que caminham juntas. E é difícil encontrar um gênero musical que represente isso melhor do que a valsa. O estilo, caracterizado por tempos bem marcados em compassos 3/4, é uma tradição em bailes desde o século XVI até hoje. Essas músicas acionam algo tão primitivo em nossas cabeças que é difícil de não dançar quando as ouvimos.

Com a popularização do teatro, não demorou para valsas tornarem-se também parte de trilhas sonoras de apresentações de balé — tendo a Valsa das Flores de Pyotr Tchaikovski, na peça O Quebra-Nozes, como famoso exemplo. A combinação era perfeita, justamente pela relação íntima do ritmo com a dança.

Séculos depois, Stanley Kubrick inovou ao incorporar no cinema uma valsa lendária, O Danúbio Azul, composta em 1866 por Johann Strauss II. Mas a música não é empregada em uma cena de dança. Pelo contrário, 2001: Uma Odisséia no Espaço a usa em cenas espaciais, como forma de expressar a solidão encontrada além da atmosfera. Apesar da ausência de dança nas imagens, ainda enxergamos objetos em movimento, lentos e fluidos como em uma apresentação de balé. Quando os humanos finalmente entram em cena, seus movimentos também aproximam-se de uma dança, com passos cautelosos seguindo o ritmo da música.

A música é movimento

Essa é a sensação que Koji Kondo invoca ao optar por compor uma valsa para a música “Underwater” de Super Mario Bros.. Vários aspectos da “Overworld” são compostos para explicitamente complementar a movimentação ágil do Mario sobre a terra. Em contrapartida, a “Underwater” é criada para a movimentação lenta e flutuante que encontramos sob a superfície da água.

É claro que, como Kubrick, Kondo poderia ter aproveitado uma valsa clássica para o jogo, mas isso não é algo tão simples quanto pode parecer. Ao escolher uma música existente, a obra acaba precisando se adaptar para encaixar com ela. Kubrick fez isso de forma genial, mas são incontáveis os exemplos menos sucedidos. Ao invés disso, Kondo compôs uma valsa inteiramente nova, associando seu nome a um gênero histórico e mostrando que músicas de videogame podem ser tão artisticamente válidas quanto quaisquer outras.

Mas, apesar das raízes em músicas tão antigas, a “Underwater” como aparece no Famicom e no NES sabe muito bem seu propósito. Valsas são geralmente tocadas em um tempo mais lento, mas “Underwater” é rápida como tantos outros chiptunes. Isso também não é por acaso: se prestar atenção durante o jogo, verá que as batidas da música são sincronizadas com a animação das nadadeiras dos Cheep-Cheeps inimigos. Essa sincronização fazia parte da filosofia de Kondo de que a música deveria descrever o movimento em tela, e é algo que vemos até hoje de formas diferentes na série.

Fazer uma análise melódica de “Underwater” não é tão interessante quanto de “Overworld”, pois no fim das contas é uma valsa relativamente convencional. É a opção pelo estilo que passa a ser o destaque. Porém, ainda é legal observar uma característica da melodia, que é a breve repetição de um trecho anterior com uma sutil mudança na tonalidade. As primeiras notas de três tempos são mi, ré sustenido mi. Pouco tempo depois, o mesmo desenho aparece como ré, dó sustenido, ré. Novamente, essa é uma característica de diversas composições de Kondo ao longo de sua carreira, como veremos adiante.

Brilho, escuridão e fogo

Eu diria que “Overworld” e “Underwater” são as composições mais inspiradas de Super Mario Bros., mas ainda há o que se dizer sobre o restante da pequena trilha sonora.

“Underground” é composta usando apenas dois canais de som do Famicom e é um laço de apenas 12 segundos. A técnica de “mesmo desenho com notas diferentes” é empregada nos quatro primeiros compassos, começando com dó-lá-si bemol e indo para fá-ré-mi bemol. Cada nota grave, tocada com o canal de ondas triangulares, é acompanhada de uma “sombra” tocada uma oitava acima, nas ondas quadradas, fazendo parecer que a música está ecoando pelas cavernas do jogo, e os breves instantes de silêncio fazem esse eco continuar nas nossas cabeças.

As últimas notas de “Underground” são uma sequência rápida que faz pouco sentido harmônico — até porque a música como um todo não é firmada em harmonia — mas funciona como uma espécie de alívio de tensão ao preparar uma nova repetição do tema.

No tema “Castle”, novamente encontramos notas que não combinam muito bem umas com as outras. Cada acorde, visto individualmente, geralmente faz sentido como terças maiores ou menores. No entanto, devido ao tempo veloz da música, nossos ouvidos têm dificuldade em separar cada um desses acordes. O que ouvimos é uma mistura de várias notas, e algumas delas em intervalos dissonantes como os de meio tom e os trítonos. O objetivo é não nos deixar relaxar durante as fases mais difíceis do jogo, e acredito que é cumprido com sucesso.

Já “Starman” é o completo oposto. Composta de apenas dois compassos, que novamente repetem um desenho musical com uma diferença de tonalidade, a música é o cúmulo de exaltação do jogo. Quando a ouvimos, Mario está invencível e devemos correr o mais rápido possível para aproveitar os poucos segundos vantajosos. A percussão da música é bem similar à de “Overworld”, mas muito mais rápida, condizente com a velocidade que Mario estará correndo pela tela.

Finalmente, temos “Ending”, uma melódica conclusão para toda a loucura pela qual o jogador passou. É outra música extremamente curta, devido ao pouco espaço que sobrou para a trilha no cartucho; na versão japonesa de Super Mario Bros. 2, Kondo incluiria a versão completa do tema. Fugindo da abundância de escolhas atípicas na trilha, “Ending” soa tranquila, harmônica e consoante. Finalmente resgatamos a princesa, então finalmente podemos relaxar. Mas, assim como a “Ending” não tem, de fato, um fim, nossa recompensa por terminar o jogo é… A promessa de uma nova aventura.


A trilha de Super Mario Bros. nos ensina muito sobre as filosofias musicais que Koji Kondo emprega em suas composições, muitas vezes mais aparentes ou exacerbadas pelos limitados recursos tecnológicos disponíveis na época. Mas ainda há muito a se dizer sobre as outras trilhas do compositor, então, no próximo texto, colocaremos um gorro verde e viajaremos para uma terra fantasiosa repleta de aventuras.

A vida e obra de Koji Kondo

Referências

Leia também

Comentários