Análise: Shu - Nintendo Fusion
Análise
Shu
5 de fevereiro de 2018

Um vilarejo é atacado por uma perversa e gigantesca criatura e cabe a uma pequena e indefesa criatura percorrer plataformas e ambientes distintos em busca de sobreviventes. Pode parecer clichê — e provavelmente você já experimentou algo parecido —, mas o caminho percorrido em Shu pelo pássaro antropomórfico de mesmo nome é divertido e agradável, seja pelo conteúdo audiovisual ou pelas habilidades adquiridas a cada novo cenário.

O vôo da Fênix

Logo de início, percebemos a ausência de um narrador ou qualquer conversa entre os personagens apresentados: uma sequência de desenhos elaborados à mão resume que o destino de Shu é vingar os habitantes de sua terra natal, encontrando cada um e conduzindo-os por ambientes inóspitos e hostis até um altar seguro — onde estarão livres das garras do nefasto perseguidor.

O protagonista pula, movimenta-se horizontalmente e também pode planar — essa última servindo para alcançar locais mais distantes e para tirar proveito das correntes naturais de ar. As sequências de pulos e rasantes pelos ares têm seus momentos bem equilibrados na maior parte das vezes, como se Shu dançasse em busca de sobreviventes e de uma saída para sua angústia.

Por se tratar de uma criatura de hábitos aéreos e terrestres, uma vida é perdida toda vez que caímos na água, assim como quando caímos no precipício — afinal, Shu não voa efetivamente, apenas paira no ar. As cinco vidas são restauradas toda vez que alcançamos um checkpoint em forma de totem, ou seja, as chances de sobrevivência durante todo o seu progresso são as mesmas. Com esse sistema cadenciado de tentativas limitadas, evita-se o famoso farming de vidas que geralmente torna as coisas mais fáceis com dezenas de tentativas seguidas.

Um por todos, todos por um

À medida que progredimos nas fases, é comum nos depararmos com sobreviventes que aparecem sozinhos e com indicação de seu nome. Os sobreviventes, todos integrantes do vilarejo arruinado recrutados pelo pássaro, concedem ao novo companheiro habilidades únicas — pulo duplo, controle sobre plantas, manipulação do tempo a sua volta, entre outros. Os desafios exigem cada vez mais reflexos e precisão e cada um dos cinco mundos tem um level design diferente baseado nas duas habilidades concedidas por vez — os recrutados acabam se juntando em pares a Shu e seguem todos de mãos dadas. Essa fraternidade explicitada é, infelizmente, apenas estética e poderia ter sido melhor aproveitada como em Ico, clássico do PlayStation 2 que leva a ideia de mãos dadas ao extremo.

Um dos mundos mais marcantes é Warbler Woods, ambientado em uma densa floresta, onde o protagonista encontra, entre muitos obstáculos, um ser com poderes de fogo. Essa parceria confere invulnerabilidade a ambientes aquáticos, porém o fogo acaba por destruir as folhagens e plantas que utilizamos como plataforma. Portanto, agilidade é necessária para ativar alavancas que controlam o nível da água e para evitar que as plataformas virem cinzas é crucial — principalmente durante a perseguição ao final desse capítulo.

Um gênero saturado

Jogos de plataforma 2D são um gênero muito explorado por desenvolvedores indie, seja por suas influências ou por uma suposta dificuldade menos acentuada para criar um universo em apenas duas dimensões. Ao mesmo tempo que mostra um trabalho cuidadoso da equipe, o jogo demonstra que poderia ter sido mais profundo em alguns aspectos, caindo novamente na repetição que assombra muitos jogos do gênero. A campanha é muito curta — dura de duas a quatro horas — e motiva muito pouco a exploração e coleta de itens opcionais. Além disso, sua narrativa é simples demais, algo que pode ter sido pensado apenas para dar o contexto à mecânica e temática do título.

Shu me recordou um pouco de Rayman Legends, publicado pela gigante europeia Ubisoft também para Nintendo Switch. Apesar de seu conteúdo audiovisual ser bom, ele não consegue ser mais que isso, diferentemente do título AAA. Os problemas técnicos, que quase não aparecem no jogo de plataforma da Ubisoft, são recorrentes e me fizeram perder o progresso durante as fases duas vezes. Sua trilha sonora, mesmo sendo propícia e dinâmica para o tipo de aventura, não é memorável como a de outros títulos independentes, enquanto os controles são fáceis, mas não tão precisos como em Celeste ou em The End Is Nigh.

Os comandos demasiadamente simples e seu contexto minimalista não fazem de Shu um jogo cativante à primeira vista, mas basta você seguir por algumas fases para descobrir o verdadeiro potencial da heroína com corpo de pássaro. Entre correntes de ar que te levam a altares de adoração e companheiros recrutados que aumentam sua curiosidade para o desfecho final, este é um título que entrega uma aventura muito curta, mas emocionante, digna de ser jogada em pequenas sessões nas palmas de nossas mãos.

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